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Entrevista com Pablo Menna do Questions

23 de junho de 2017 | Publicado por: Fernando Fantini

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Prestes a lançar seu novo DVD, batemos um papo com o guitarrista Pablo Menna do Questions! Confira a entrevista por Fernando Fantini.

– Vale lembrar que a banda tocará no festival Oxigênio em São Paulo. Saiba mais aqui.

Salve Questions, é uma honra ter vocês aqui no Besouros.net e para começarmos contem como foi formar a banda em 2000, quais eram as influências de vocês e como era a cena na época?

Salve Fernando e galera do Besouros!
Nós formamos a banda em 2000, mas nos conhecemos desde muito antes disso. Todos crescemos no bairro do Butantã na periferia de SP, tivemos outras bandas juntos quando éramos mais moleques. Em 99, por ai, a gente já estava há uns anos sem tocar, então bateu forte a vontade de fazer um som e expressar as nossas ideias. Em fevereiro de 2000 a gente começou a compor as músicas e ensaiar, já com uma ideia clara de como a gente queria soar e quais as principais mensagens que a gente queria passar. As principais influências eram as bandas que a gente cresceu ouvindo, por um lado RDP e Sepultura (que fomos juntos em um monte de shows deles no Dama Xoc, Aeroanta, Projeto SP…) e por outro, as bandas de hardcore gringas, principalmente as Norte Americanas, como Cro-Mags, Minor Threat, Sick of it All, D.R.I. e um monte de outras.
Era uma época em que as bandas underground/hardcore já tinham alguns espaços pra tocar, muitas já tinham lançado cd, rolava um mínimo espaço na Mtv (que era importante pra molecada, todo mundo via), enfim, tinham coisas acontecendo. A internet já existia mas ainda não “dominava” a vida de todos como hoje.

Queria saber qual a relação da banda com o movimento Straight Edge já que o QUESTIONS é figura marcada em várias Verduradas?

O Edu, nosso vocal, sempre fala que nos anos 80 ele foi um moleque SxE sem saber, já que não bebia ou fumava até os seus 21 anos de idade, mesmo sem conhecer o movimento. Quando a gente foi conhecendo mais sons e descobrindo bandas novas, muitas que a gente se identificava eram SxE, como Earth Crisis, Snapcase e a principal delas o Strife. A gente se identifica com a atitude positiva, com a correia do faça você mesmo, com a energia da molecada, com muitas ideias. Fizemos grandes amigos nesse meio, não só no Brasil como também na Europa, onde as nossas tours são agendadas 90% por SxEs.
Desde de 2009 os nossos discos são lançados pela Seven Eight Life, um selo que, antes de nós, só tinha lançado bandas SxE. Então, caminhamos lado a lado com muitxs SxE, para nós é uma grande satisfação que essa galera cole nos shows e acompanhe a banda, mesmo que a gente nunca tenha levantado essa bandeira. Sempre admiramos o movimento, principalmente o nosso vocal Edu. O Questions desde o começo fala de união e respeito entre as pessoas no rolê, seja você SxE, punk, hardcore, metal ou o que for. Quando começamos, em 2000, sentimos que tinha muita divisão nesse sentido, e a gente não queria que fosse desse jeito. Sempre insistimos que todxs são bem vindxs, desde que haja respeito. Então, quando somos convidados pela Verdurada ou shows assim, vamos com tudo para compartilhar idéias, respeito e amizades.

Falem um pouco dos rolês da banda pelo Leste Europeu, como vocês chegaram até lá e como é a recepção do público?

Tocar na Europa era um sonho que a gente tinha desde de moleque e que, quando montamos a banda, virou um objetivo a ser alcançado. Nos esforçamos e nos dedicamos muitos anos para que virasse realidade. A primeira vez foi em 2007 e a ideia era tocar no maior número de lugares possível, foram 37 em 17 países! O cara que organizou essa tour é húngaro, por isso tinha muitos contatos na Romênia, Bulgária, Polônia, Rep. Tcheca, além da própria Hungria, etc. Para nós foi uma satisfação enorme e um aprendizado muito grande.
No geral, as condições econômicas são muito melhores em países como Alemanha, França, etc, então rolam muitos mais shows, o público tem mais possibilidade de comprar merch das bandas, eles tem mais estrutura de um modo geral. Já no Leste, por mais que seja Europa, as condições são mais difíceis, não são todas as bandas que tocam por lá. Então a galera é mais sedenta por shows e mais empolgada. Em muitos lugares ali nos sentimos muito bem recebidos, completamente “em casa”. Ainda mais pelo fato de virmos de tão longe, a galera tem um puta respeito e nos considera por nos esforçarmos para ir até lá tocar. O pessoal é curioso, vem trocar ideia, quer saber como é a vida no Brasil… alguns sabem bastante coisa daqui, outros não sabem nada, mas geralmente respeitam demais o corre que a gente faz.

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Vocês tiveram problemas com grupos fascistas aqui no Brasil ou nas tours de vocês pela Europa?

Infelizmente em 2017 ainda temos que falar disso. Estamos vivendo um momento muito difícil, não só no Brasil, mas no mundo. Vários retrocessos e várias ideias fascistas circulando. E o meio underground não está livre disso. Entendemos que o papel do Hardcore é, e sempre foi, lutar contra esse tipo de ideia.
Aqui no Brasil nunca tivemos nenhum problema. Na Europa já rolaram alguns episódios, nunca com consequências muito graves, ainda bem. O mais tenso deles foi na Bulgária em 2009, onde tinha 3 caras nacionalistas no local do show. A gente estava fazendo a tour com o United and Strong, da Alemanha, e eles estavam tocando antes da gente. No meio do show esses caras começaram a fazer saudações nazistas “na brincadeira”, esse tipo de merda. A banda parou de tocar na hora e disse que o show não ia continuar se os caras não fossem expulsos do lugar. Depois de muita conversa, como ninguém expulsou os caras de lá, a gente decidiu não tocar também e o clima ficou tenso, com a sensação de que poderia estourar uma briga a qualquer momento. Guardamos tudo na van e quando dobramos a esquina tinha um grupo maior de nazis, não sei dizer quantos, que chegou a jogar uma pedra que pegou na janela da van. Não quebrou o vidro, mas a situação toda foi uma merda, porque 3 caras estragaram a noite das 100 e tantas pessoas que tavam lá. Sem falar no veneno que passamos, atravessar o mundo e não conseguir fazer o show por causa de um motivo zuado desses é muito frustrante.
Ideais fascistas, discursos de ódio e intolerância devem ser combatidos sempre, o Hardcore pra nós é o oposto disso.

Como foi o convite do Clemente (Inocentes/Plebe Rude) e como foi tocar no evento “O Fim do Mundo, Enfim”?

Foi uma puta honra! “O Começo do Fim do Mundo”, o festival original de 82, foi um evento que marcou demais toda a geração pioneira do Punk no Brasil e abriu os olhos do mundo inteiro para o que estava acontecendo aqui. Em 2012 rolou a celebração de 30 anos do Festival e o Clemente nos chamou para tocar no dia do RDP e Invasores de Cérebros. O Clemente é um cara que a gente admira desde moleque e teve a oportunidade de conhecer no começo dos anos 90 quando rolou umas oficinas de bandas na Casa de Cultura do Butantã. De lá pra cá ele viu que as “aulas” que ele deu pra gente significaram muito. Ele diz que tem certo orgulho de nós, por ver o que já conquistamos com a banda,
Por mais que o nosso som não seja exatamente Punk Rock “clássico”, vamos dizer assim, a atitude e ideias do Punk foram fundamentais na nossa formação, aprendemos o princípio do Faça Você Mesmo e levamos isso como inspiração e prática desde que montamos a banda. Nos sentimos como herdeiros dessa primeira geração de bandas Punk brasileiras e pra nós representa demais ter tocado no festival!
“O Fim do Mundo, Enfim” foi registrado em dvd e saiu e pelo selo Sesc.

As capas dos álbuns do QUESTIONS e cartazes da banda são muito peculiares e sempre me chamaram muita atenção, falem de onde vem as ideias de cada uma delas e quem é o artista que cria estas imagens?

Toda a arte do Questions é feita pelo nosso vocal Edu. Ele sempre desenhou e se interessou por essa parte, tanto que ele tem um trabalho de pinturas/gravuras/desenhos que ele assina como Revolback.
Nos primeiros dois discos, “Resista” de 2004 e “Fight For What You Believe” de 2007, as capas foram feitas de colagens com imagens que já existiam. A partir do “Rise Up” (2009) ele passou a pintar as artes para as capas dos discos e tá sempre fazendo cartazes, posters, adesivos, stencils, etc. Ele costuma vir com a ideia pronta ou quase pronta, podemos dar um palpite ou outro, mas sempre confiamos que ele vai vir com algo legal e que tenha a ver com a gente e com o que a gente quer passar naquele momento. No “Life is a Fight”, de 2011, a capa era um desenho das nossas mães. No último disco, “Pushed Out… of Society” (2015), temos a figura de um nordestino.
Pensando agora, cada capa traz uma ideia diferente, mas todas têm algo em comum: são retratos de pessoas batalhadoras, pessoas que de alguma forma estão numa posição desfavorável na sociedade e tentam melhorar a sua condição. Esse é um dos temas que a gente sempre acaba voltando, já que vivemos numa sociedade extremamente desigual e muito cruel com a maioria esmagadora das pessoas.

Pushed Out… of Society

Imagino que tenha sido do caralho ter gravado um cover de “Troops of Doom” com o próprio Igor Cavalera na bateria, como foi isso para vocês e qual a relação com os irmãos Cavalera?
Com certeza foi uma das coisas que mais marcou as nossas vidas! Como falamos na primeira pergunta, crescemos adorando o Sepultura com a formação clássica, fomos juntos a shows inesquecíveis no Projeto SP, Dama Xoc, Aeroanta… Quando montamos o Questions, o Iggor morava no Brasil, então quisemos encontrar o cara e mostrar o nosso som. Eu lembro de ter levado o CD Single “Strength” numa loja que ele tinha no ABC e de cara ele se interessou pela banda, tanto que logo depois ele convidou a gente pra abrir o show do Sepultura algumas vezes. A partir daí ficamos mais próximos. Ele usou a nossa camiseta com o logo clássico do Questions em tudo que é programa que ele participou e em shows na Europa nos idos de 2002, 2003. Depois nos chamou para fazer a capa do EP “Revolusongs”, gravou uma música nossa no segundo disco, tocou com a gente no nosso show de 10 anos, enfim, de grande ídolo virou amigo. Quando resolvemos gravar a “Troops”, em homenagem aos nossos tempos de moleque, tivemos a sorte dele estar no Brasil e topar o convite. Foi muito foda!
O Max não é tão próximo já que não mora aqui, mas ele conheceu a gente quando o Edu foi num festival que o Soulfly tocou na Alemanha em 2005. Ali já botou o adesivo do Questions na guitarra e sempre nos deu força, inclusive convidando o Edu para cantar Troops num show do Soulfly aqui em 2012.
São caras que conquistaram o mundo, que influenciaram muito na nossa formação, foram decisivos mesmo pra nossa vida, é um puta orgulho ter o reconhecimento deles.

 

Falem dos novos materiais, projetos e shows do QUESTIONS.

O grande foco no momento é a divulgação do nosso primeiro DVD, que vai ser lançado no próximo dia 30 de junho. Foram 16 anos tocando bastante até que a gente resolvesse que era a hora de um registro ao vivo. O show foi gravado no ano passado na Jai Club aqui em SP e foi um dos melhores que fizemos na vida! Muitxs amigxs e fans de tudo quanto é canto, de todas as partes da cidade, do interior e até de outros estados… a energia das pessoas nesse dia tava simplesmente inacreditável! Antes mesmo de começarmos a tocar a primeira música, a molecada já tava voando pra tudo que é lado! A gente não é aquela banda virtuosa que faz questão de não errar nenhuma nota, pra nós num show de Hardcore é muito mais importante a interação da galera, emoção do momento e absorção de idéias. O resultado ficou com a nossa cara! Logo após o lançamento, vamos pra Europa pela sexta vez e então seguimos com os shows do DVD no Brasil.

Tem uma música inédita, a nossa primeira em português, que vai ser lançada na coletânea alemã da Hardcore Help Foundation, agora em julho. Junto com ela sai um lyric video também.

Além disso, estamos sempre compondo músicas novas, pode ser que tenhamos novidades ainda esse ano.

 

Para finalizarmos deixem um recado para a galera que acompanha o Besouros.net.

Agradecemos o espaço! Muito legal ver o Besouros firme e forte depois de tantos anos na luta. Fazer qualquer corre no underground de um país subdesenvolvido como o nosso é uma batalha difícil, muitos desanimam e ficam pelo caminho. Mas é muito importante manter a contra cultura viva, seja através de bandas, sites, zines, blogs, selos, etc. As músicas e ideias que circulam nos grandes meios de comunicação não nos representam e servem muito mais para girar dinheiro do que qualquer outra coisa. Nós achamos que o Hardcore deve tentar incentivar as pessoas a questionar os padrões e pensarem por si mesmas. Se os governantes e poderosos nos querem ignorantes, é pra que sejamos manipulados mais facilmente. Cabe a nós resistir sempre, nos unir e nos ajudar sempre, só assim poderemos conseguir melhorar a nossa realidade e das gerações que vierem depois. A vida é, e sempre será, uma luta!



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