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Entrevista com Zoli Téglás do Ignite e ex-Pennywise

1 de outubro de 2015 | Publicado por: Fabio Martiniano

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Entrevista com Zoli Téglás do Ignite e ex-Pennywise

Marcelo Jaimes (que é um grande fã do Ignite) bateu um papo (via Skype) com Zoli Téglás (ou Zoltán Téglás), frontman do Ignite, também conhecido por ter participado de bandas como Pennywise e Misfits, além do ativismo junto da Sea Shepherd Conservation Society.

Ignite vem ao Brasil e América Latina agora em outubro de 2015. Perguntamos sobre essa turnê, o novo álbum (A War Against You, que será lançado em 2016), sua carreira e sobre política mundial, que é tema recorrente de suas letras.

As perguntas, pesquisa e tradução foram feitas por Fábio Martiniano (Besouro) e Marcelo Jaimes.

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Confira:

Marcelo Jaimes: A banda está voltando ao Brasil e lançando um novo álbum no começo de 2016. Mas já faz oito anos da última visita ao país e dez anos do lançamento do último álbum. Neste tempo você (Zoli) cantou no Pennywise e os fãs ficaram preocupados com o futuro do Ignite. Esse foi realmente o motivo pela banda ter diminuído o ritmo?

Zoli Téglás: Você tem uma namorada? Imagine que você tenha 5 namoradas há 15 anos, vocês ficam de saco cheio uns dos outros. É assim que é com uma banda de rock, você tem 5 esposas ao mesmo tempo e estão sempre se irritando. Então demos um tempo uns dos outros, porque estávamos muito cansados, fizemos caminhos diferentes para agora nos juntarmos.

Marcelo Jaimes: Você costumava tocar em projetos solo, como o Zoli Band. Ainda toca?

Zoli Téglás: Sim, estou trabalhando no novo álbum da Zoli Band. Todas as músicas foram para o Ignite. Você só escreve músicas, nem tenta escrever uma música punk. Por isso quando vai montar um álbum você tem outras 15 músicas boas, mas não são as certas para o álbum. Então elas terminam indo para o Zoli Band. Vão para meu trabalho solo.

Marcelo Jaimes: Eu gosto dessas!

Zoli Téglás: Obrigado!

zoli teglas do Ignite

Marcelo Jaimes: O que podemos esperar do novo álbum, as letras são tão críticas como as anteriores?

Zoli Téglás: As letras são muito importantes. Quando você vê uma música você vê 200%, 100% são as letras e 100% são os vocais e melodias. Se você tiver letras ruins, mais da metade da sua música vai ser ruim, porque sua letra é uma merda. Por isso, bandas como  Rise Against (uma das minhas bandas preferidas), tem uma música chamada “Satellite”, onde a letra em si uma poesia incrível. Normalmente você não trabalha uma música pra ela ser um hit, mas se você não se debruçar nela, não vai conseguir.  Você não pode esquecer disso. Os primeiros a escrever música foram os monges gregorianos, e então você só poderia cantar na igreja quando rezasse. Porque cantar é espiritual, o que te deixa perto, te conecta com seu Deus. Então não esqueça disso, música é espiritual, daí que ela vem. Se você não acredita no que canta, sua reza não presta, e você canta sobre nada, só por escrever uma música, você está machucando a causa. Então, eu gosto das letras de todos meus álbuns, eu realmente gosto das letras desse novo álbum e estou muito orgulhoso dele. E eu realmente valorizo músicos que sentam e perdem tempo com suas letras, porque se não o fizer, você estará desvalorizando seus fãs. Faz sentido?

Marcelo Jaimes: Sim, claro! E como você escolhe os temas/problemas de suas letras?

Zoli Téglás: Você simplesmente escreve elas. Algo como meu pai, que tem alzheimer. Nós somos uma família imigrante da Hungria e meu pai não teve opções a não ser trabalhar para sustentar a família. E a razão dele ter alzheimer é porque ele se matou de trabalhar em máquinas onde os imigrantes trabalhavam na época, cortando metal e materiais. Por exemplo, tinha uma máquina onde tinha que usar produtos químicos para cortar o metal e manter o metal frio, que caiam na sua pele, e ele também fumava, e inalava esses químicos. A razão de ele ter alzheimer é para eu ir pra escola, para termos uma boa casa, viver o sonho americano e eu conseguir virar um músico. Para eu não ter que viver como ele. Então, quando eu escrevo uma música eu penso que vou escrever sobre meu pai. Uma música que chama “Work” (“Trabalho”), fala como ele trabalhou todo dia em um trabalho que não gostava, com um chefe cuzão. Porque seus filhos, sua mulher, sua família precisavam do dinheiro, porque tínhamos contas a pagar. A letra fala em como seus sonhos acabaram.  Ele queria ser um jogador de futebol, mas não dava para fazer isso quando você precisar sustentar uma família sendo um imigrante. Então esse novo álbum é uma homenagem ao meu pai, que se matou de trabalhar para eu ter de tudo em vida.

Marcelo Jaimes: Como você vê a situação dos refugiados da Síria?

Zoli Téglás: Eu vejo como uma manobra política. E todos esses refugiados indo pra Europa é uma movimentação geopolítica. Eu sinto pena porque ninguém levantou um dedo pra ajudar os sírios. Os russos ainda estão financiando Assad para matarem mais pessoas. E todas as pessoas estão indo para o oriente médio. Eu sinto muito por essas pessoas que estão chegando, eu sinto pelos europeus também que agora tem milhares de pessoas do dia pra noite em seus países. Serão diferentes culturas e confrontos. E os cristãos e muçulmanos não vão conseguir lidar. A Europa é muito liberal e eles gostam de novas culturas, sempre trouxeram pessoas da Somália e Turquia, especialmente os alemães, franceses e ingleses. E eles não querem uma guerra com o Irã. Mas agora com esse fluxo, os imigrantes vão se misturar com eles e os imigrantes podem ser “iniciadores de problemas”. Assim, em alguns anos mudarão a mentalidade do europeu contra muçulmanos, havendo mais apoio para começar uma guerra na região. Acho que esse é o problema. Porque já tem uns 4 anos que as pessoas começaram a nadar até as fronteiras, e essa guerra vai ser eterna e ninguém faz nada. Então eu acho que tem mais coisas por trás. Como um imigrante, eu sinto pena por essas pessoas. Elas não querem viver na Europa, elas querem viver na Síria. Mas o Assad começou a matar todo mundo lá e eles não tem pra onde ir. Só é muito estranho que de repente milhões de pessoas estão indo para Alemanha, uma onda de pessoas. E alguns desses imigrantes montarão células terroristas, começarão problemas e vão transformar a mentalidade da Europa contra os refugiados. É uma droga, é tão triste cara, porque tem tanta gente ao redor do mundo e não há muito o que fazer, a não ser rezar. Eu rezo toda noite para que pessoas ruins achem o amor no coração para mudar. Eu rezo toda noite pra essa merda de mundo bagunçado. No final das contas, cuide da sua família e dos próximos. Se não se importar com sua família o mundo vai virar uma zona. É uma loucura cara, a terceira guerra mundial está vindo. É loucura! É um mundo pequeno.

Marcelo Jaimes: Você tem conexões com o cenário musical húngaro? Gostaria de recomendar alguma banda de lá?

Zoli Téglás: Sim, tem uma ótima banda de metal que chama Blind Myself.

Marcelo Jaimes: Eu vi que gravou com eles.

Zoli Téglás: Sim! Blind Myself é uma ótima banda. Outra que canta em inglês, mas tem um nome húngaro, chama Tankcsapda, são muito bons. Tem muita música boa por lá, tenho muito orgulho.

Marcelo Jaimes: Nesses anos você foi convidado para tocar em várias bandas, como foram essas experiências? Como foi para você o período no Pennywise?

Zoli Téglás: Pennywise foi ótimo! Nós gravamos um bom álbum. Foi difícil porque eles tinham um cantor a 20 anos. As pessoas tem tatuagens do Pennywise e ai vem um novo cantor. Eu não soo como Jim.

Marcelo Jaimes: Eu tenho uma tatuagem do Ignite!

Zoli Téglás: Sério? Então você vai ganhar uma camiseta!

Marcelo Jaimes: Hahaha eu vou te procurar então!

Zoli Téglás: Me procure e te dou, isso é muito legal. Você é louco, obrigado! Então, eu cantei nos Misfits, foi ótimo! Pennywise. Fiz uma música pro The Who. Eu cantei em um álbum do Motörhead do Social Distortion. Eu sou muito agradecido. Eu vim de uma cidade pequena da Hungria e vim pros Estados Unidos por oportunidades.

Marcelo Jaimes: Sim, é uma vitória!

Zoli Téglás: Claro, é ótimo certo? Sou muito sortudo! O cara mais sortudo do mundo!

Entrevista com Zoli Téglás do Ignite e ex-Pennywise

Marcelo Jaimes: Outra pergunta sobre uma letra. Em “Poverty For All” você fala sobre a história da Hungria. Aqui no Brasil, e imagino que nos EUA também, as pessoas não conhecem bem essa história. Qual a intenção com essas letras? Ensinar um pouco mais sobre?

Zoli Téglás: Sim. As pessoas esquecem quantas pessoas o comunismo matou. Eu não quero que se esqueçam isso. A história de milhões de pessoas que morreram no comunismo. Stalin matou algo como 100 milhões de pessoas. E Mao Tsé-Tung 325 milhões do seu próprio povo. Isso é muita gente morta por uma ideologia, onde todo o dinheiro fica no topo e todo o resto do povo sofre. É sobre isso. O comunismo é uma grande ideia, onde todo mundo trabalha junto e divide o lucro. Mas o problema é que as pessoas são muito egoístas e gananciosas, e no final não dividem o lucro e não trabalham junto. E os caras do topo ficam com todo o dinheiro e o povo sofrendo. Isso que acontece no comunismo. É triste! Eu não gosto do comunismo, é só uma forma de um puro capitalismo. A ideia é ótima! Eu gosto da mistura do socialismo com o capitalismo. Eu gosto do jeito que a Suécia faz. Os impostos são altos, e eles pagam pelas escolas, universidades, saúde, por tudo com os altos impostos. Mas nos Estados Unidos os impostos são altos e o dinheiro vai pra guerra. É totalmente diferente!

Marcelo Jaimes: Você conhece vários lugares no mundo. Você conhece algum país com um bom sistema político?

Zoli Téglás: Eu gosto da Suécia bastante, gosto muito! Eu viveria lá se não fosse tão frio! Mas é muito escuro e frio o tempo todo! Começa fazer frio em setembro até maio. Só alguns meses de calor e fica frio novamente. Não é pra mim.

Marcelo Jaimes: Ainda mais você que vive na Califórnia!

Marcelo Jaimes: Você ainda está trabalhando como ativista junto da ong Sea Shepherd Conservation Society?

Zoli Téglás: Sim, Você pode colocar o link do site Seashepherd.org na entrevista?

Marcelo Jaimes: Claro!

Zoli Téglás: É uma organização incrível! Nós precisamos de ajuda e de ajuda no Brasil. Tem muito trabalho a ser feito e temos ótimos voluntários. Eu sugiro que o pessoal do Brasil perca um tempo para fazer algo que vai mudar suas vidas juntando-se ao Sea Shepherd.

zoli teglas com camiseta do Sea Shepherd Conservation Society

(Zoli com a camiseta do Sea Shepherd Conservation Society)

Marcelo Jaimes: Com tanto tempo de banda, há alguma música que não tocam mais porque não gostam ou por qualquer outra razão?

Zoli Téglás: Nos começamos em 1995, e eramos muito novos, eu era mais bonito e mais em forma! Agora que sou velho e algumas são bem difíceis de cantar! São tão altas, não acredito que eu cantava tão alto! Não há nenhuma música que não goste de cantar, só há algumas bem difíceis de cantar. Depende como me sinto ao montar o setlist. Eu queria cantar músicas como do Justin Bieber, sobre festas, garotas e ter um bom momento, é bem melhor do que guerra!

Marcelo Jaimes: É bem difícil fazer  letras boas como você faz.

Zoli Téglás: E ai está o problema! Eu escrevo sobre guerra, pobreza, problemas sociais e direitos dos animais. Você fica deprimido! Toda vez que toca a música você revive. Por isso seria melhor cantar sobre festas, para me divertir. Quando você faz letras sobre política você não sobe no palco como se estivesse em uma festa, você revive e fica transtornado emocionalmente. Então preciso de uma hora pra voltar ao normal depois dos shows. Por isso queria ser um pop star, pra subir no palco e ficar feliz. Mas não é meu propósito na vida! Meu propósito é mostrar as pessoas o que está errado no mundo. E dar o exemplo como na Sea Shepherd, Médicos sem fronteiras. Essas ongs que dão a opção, mostram o problema, falam sobre e dão uma opção de como ajudar.

Entrevista com Zoli Téglás do Ignite e ex-Pennywise

Marcelo Jaimes: O que os fãs brasileiros podem esperar desse show? Vão tocar músicas novas?

Zoli Téglás: Vamos tocar músicas do novo álbum e vamos tocar um setlist divertido. Todas as vezes que tocamos no Brasil foi muito divertido! Não vamos aí a um bom tempo. E na próxima vez que voltarmos será com o álbum novo. Será divertido. Estou ansioso.

Marcelo Jaimes: Quer deixar um recado para os fãs?

Zoli Téglás: Claro! Sejam legais uns com os outros. Cuidem uns dos outros. Obrigado por tudo que temos, por todos esses anos. E desculpe por demorar 10 anos, foi minha culpa! Mas eu acho que esse álbum novo é muito bom. E estou ansioso para tocar aí .

Marcelo Jaimes: Muito obrigado! Vou tentar te encontrar pra mostrar minha tattoo!

Zoli Téglás: Claro, por favor! E divulguem a Sea Shepherd Conservation Society. Obrigado cara!



2 comentários para “Entrevista com Zoli Téglás do Ignite e ex-Pennywise”

  1. […] Este ano, antes da vinda ao Brasil, entrevistamos o vocalista Zoli Téglás. Leia aqui. […]

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