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Entrevistamos Lucas Guerra da banda Pense

30 de maio de 2018 | Publicado por: Fabio Martiniano

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Foto: Guilherme Fernandez

Com o recém lançado álbum Realidade, Vida e Fé, o vocalista do Pense, Lucas Guerra, bateu um papo com Guilherme Góes sobre o novo trabalho, influências, a vida na estrada e cena Hardcore. Confere aí!

1 – Primeiramente, obrigado por dedicar um tempo para essa entrevista. Recentemente, a banda Pense lançou um novo trabalho e realizou dois shows de audição em Belo Horizonte e São Paulo mostrando as músicas inéditas para um público limitado. Como os fãs reagiram às novas musicas ao vivo?
Lucas: Eu que agradeço a oportunidade! Na realidade, não foram shows. Fizemos uma festa de audição em cada uma dessas cidades. Para mim, foi mais um momento de celebração do trabalho mais importante que já fizemos até hoje, junto com pessoas que gostamos e juntos aos fãs da banda que tiveram a oportunidade de “trocar uma ideia” com cada um de nós. Em São Paulo, a festa foi muito intensa. O pessoal chegou a abrir uma roda e “bater cabeça” mesmo sem a banda está tocando; foi animal!

2 – Como foi o processo de gravação do novo disco?
Lucas: O processo de gravação, mixagem e masterização aconteceu no meu estúdio (Estúdio Guerra) aqui em Belo Horizonte. As gravações ocorreram de maneira 100% independente. É um “adianto” enorme ter o próprio espaço para produzir as músicas; além de ter um “custo quase zero” para a banda. Todo o processo foi registrado pelo Felipe Cavalieri e Amanda Dantas. Além disso, eles também fizeram um Making Of de todas as etapas de produção do disco (disponível em nosso canal no Youtube).

3 – Quem foi o responsável pela capa do novo disco e como surgiu a ideia do estilo do desenho? A arte é realmente impactante!
Lucas: O responsável pela capa do disco foi o Felipe Protski. Ele é um artista muito talentoso e com uma expressão visual única. Nós passamos o conceito da arte do disco para ele construir a imagem.

A camada externa do personagem representa “Realidade”, por ser o fator externo em comum. A camada interna representa “Vida”, por ser algo interno e pessoal. Já a terceira camada de energia representa “Fé”, por ser algo totalmente abstrato e imaterial.

4 – Você poderia explicar o título “Realidade, Vida e Fé”? Existe algum significado especial no nome do novo álbum?
Lucas: Todas as letras do álbum foram escritas a partir da nossa percepção de mundo (Realidade), vivência (Vida), e crença (Fé). A realidade pode ser considerada como um fator externo, no sentido de que é construída pela absorção dos nossos sentidos ao mundo que nos cerca. Já a vivência é algo criado a partir da nossa interação como indivíduo com essa percepção de realidade, portanto, ela é interna, no sentido que o que eu considero real, pode ser real pra você também, mas a minha experiência de vida é só minha, e por mais que ela possa ser compartilhada, ela sempre será intransferível. Já a crença, ou o que chamamos de “Fé”, é uma construção abstrata sobre aquilo que absorvemos do mundo (Realidade) e sobre o que experienciamos (Vida). Não é algo palpável e não depende daquilo que é material para existir.

5 – Vocês tiveram alguma influência especial durante o processo de gravação de “Realidade, Vida e Fé”?
Lucas: Não tivemos uma influência direta de algo especifico, mas todas bandas que escutamos e todos os livros que lemos acabaram nos influenciando indiretamente.


Foto — Divulgação

6 – O novo álbum já está disponível em todas as “mídias streaming”. Nas primeiras execuções, notei imediatamente que as músicas são muito mais rápidas e agressivas em comparação com as músicas do último trabalho. Além disso, a maioria das letras deste novo trabalho possuem uma temática pessoal. Poderia falar um pouco sobre essas mudanças?
Lucas: Realmente, as músicas ficaram mais agressivas sim - tanto nos arranjos quanto na forma de mixagem e melodia vocal. No entanto, a velocidade não aumentou. A média de batidas por minuto das músicas desse CD foram de 226 BPM. Nos álbuns “Além daquilo que te cega” e no “Espelho da alma”, chegamos a compor algumas poucas músicas em 230 BPM. Acho que pelo fato de ter ficado mais pesado, existe uma impressão de estar mais veloz.

Sobre a temática pessoal das letras, o Pense sempre teve, mas cada vez mais acredito que a mudança interna de cada um é a chave para mudanças externas; e não o contrário. Duvido muito que algum novo modelo político seja a solução.Sinceramente, acredito que o despertar individual de cada um é mais importante.

7 – Em 2017, a banda lançou o single “Revitalizar”. Aparentemente, a letra dessa música fala sobre superar desentendimentos que existem dentro de uma banda. Você poderia falar um pouco sobre essa música?
Lucas: Não só dentro de uma banda, mas também em qualquer outro cenário em que a convivência entre pessoas é intensa e temos que lidar com situações diversas. No nosso caso, essa convivência resultou no fim da banda. Depois de um ano longe um do outro, nós resolvemos nossos problemas e aprendemos a conviver em grupo, mas ainda estamos nesse processo de aprendizado e evoluindo aos poucos. A música revitalizar fala sobre isso. Lançamos aquele single para falar sobre a volta da banda.

8 — De “Espelho da alma” para o “Realidade, Vida e Fé” se passaram 7 anos. Quais mudanças vocês percebem ouvindo o primeiro e o último álbum?
Lucas: Ao meu ver, melhorou em todos os sentidos. As letras estão bem mais maduras, os arranjos mais bem elaborados e a sonoridade mais coesa. Isso refletiu até na média de idade apontada pelas ferramentas de análise das redes sociais da banda. Anteriormente, tínhamos um público maior entre pessoas de 18 anos. Hoje em dia, esse média está entre pessoas de 25 anos. Fico feliz que a banda tenha evoluído junto ao público. Existem bandas que a gente escuta na adolescência, mas deixamos de escutar porque se torna algo “infantil” na medida em que vamos envelhecendo, e isso não aconteceu com o Pense.

9 – A banda Pense existe desde 2007. Você acha a banda já alcançou todos os objetivos possíveis? Honestamente, você acreditou que seria tão bem sucedido quando fundou essa banda? O Pense é uma das principais bandas do nosso tempo, e seus shows sempre estão completamente cheios.
Lucas: Certamente, os objetivos iniciais já foram alcançados e até “extrapolados”. Ninguém em nossa banda imaginava que isso iria ocorrer. Porém, quando um objetivo é alcançado, outros novos objetivos surgem. Estamos em constante processo de evolução, não só como banda; mas como seres humanos. Ao meu ver, ser “bem sucedido” é ser feliz com aquilo que faz. Não é uma questão de “tocar em um lugar enorme” e ganhar dinheiro. De um ano pra cá, vimos pessoas que eram consideradas “bem sucedidas” se matarem. Essas pessoas eram ricas e tinham bandas famosas. Desde o início, me senti bem com o Pense, pois escrevia aquilo que acreditava. Desde o inicio, a banda já era “bem sucedida”. Quando isso parou de acontecer, a banda acabou… e se voltar a acontecer, a banda irá acabar de novo.

10 – O que te inspira a continuar se reiventando, após mais de uma década em atividade?
Lucas: O fato de que vamos morrer e de que eu não faço a menor ideia do que irá acontecer depois. Cada um tem sua crença sobre o “pós-morte” e alguns vivem em função disso. Eu também tenho os meus “achismos”, só que a vida está acontecendo no agora, e na maioria das vezes, o “agora” não é algo gostoso de ser vivido. A maior parte do tempo, nós estamos cumprindo obrigações e deveres simplesmente para continuarmos vivos. Eu não sei o que vai acontecer e não estou satisfeito com o meu presente. É preciso me reinventar a todo instante.


Foto — Dayane Mello

11 – O que mais podemos esperar do Pense no futuro?
Lucas: Pensamos na ideia de lançar um CD acústico. No momento, isso é apenas uma ideia e não um plano. Particularmente, gostaria de ser ouvido por outras pessoas, porque acho que a mensagem do Pense é para todo mundo. Infelizmente, nem todo mundo curte ouvir “barulheira”. O lance é que no hardcore é onde a gente se encontra, é algo catártico, é um ritual onde a gente sai de alma “lavada”, então não sei se conseguiríamos fazer algo tão verdadeiro em um formato acústico. Espero que sim, vamos ver… Enquanto isso não acontece vamos fazer uma tour de lançamento do novo álbum passando por todo o Brasil.

12 – Encerrando a entrevista, qual a sua opinião sobre a cena Hardcore? Você acha que este movimento é uma mera subcultura adolescente como qualquer outra ou algo realmente impactante e transformador?
Lucas: Para mim, é uma terapia! Quando eu vou em um show de uma banda que gosto e grito as letras junto, sinto todo o peso da música que é aquele energia em formato de paulada no nariz e vibro com os amigos no meio daquele “caos”. Eu me sinto vivo!

13 – Você tem alguma última palavra ou algo para acrescentar? Estamos ansiosos para o show de lançamento do disco aqui em São Paulo! Mais uma vez, muito obrigado pela entrevista.
Lucas: Obrigado pelo espaço. Acho fundamental divulgarmos ideias que achamos relevantes e ter uma conversa sobre isso.



Um comentário para “Entrevistamos Lucas Guerra da banda Pense”

  1. Heybetil disse:

    Mano, simplesmente demais! Pra mim é assim, perdemos o chorão e Charlie Brown Jr, mas temos o Lucas e a banda Pense. Que pra mim desde da primeira música que escutei é a melhor banda de HC do Brasil. Esses caras estão onde estão pq fazem o que faz por paixão e por aquilo que acreditam! Exemplo pra mim.

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